UM QUARTO PARA AS CINCO E OS OUTROS


O som perturbador da arca frigorífica continuava a encher a sala como se já não bastassem as cinco ou sete mesas, respectivas cadeiras e papeis amarfanhados, mal jogados pelo espaço, sem qualquer harmonia aparente. Desorganização. Um número impar soava-lhe sempre a um sem número de tentativas de criar algo minimamente metódico, passível de repetir, ainda que a tasca fosse outra.

Hoje estava feliz. Pedira uma sandes de queijo e um café a acompanhar, no snack-bar do costume, o mesmo que ainda ontem encontrara, surpreendentemente, fechado. Sentiu-se seguro, confiante e mais importante a seguir o guião que achava, tinha aquele dia.

O homem do snack-bar devia ter nome mas, para ele que nunca passara do bom dia, boa tarde e quanto é, não existia boa volta a dar, melhor do que recorrer à identificação que mais se facilitasse de se pensar, o homem do café. O homem do café recolheu, membro por membro, o seu corpo todo para a cozinha mas, ainda assim, sentado naquela mesa, agarrado que estava àquela sandes, sentiu-se vigiado. Parou de mastigar e perscrutou em volta, como quem procura um par de olhos mais ou menos atentos ao movimento deprimente que, julgava, se podia achar numa boca revolta em movimentos objectivos com o intuito de deglutir aquele pedaço de comida.

Já não estava assim tão seguro de si. Todo o seu corpo se enchia de interrogações e em simultâneo a musicalidade de passos em fundo traziam-lhe a imagem tão batida do rufar dos tambores. O homem do café voltou e no mesmo espaço estavam agora ainda mais duas pessoas que, somadas às duas que já lá se encontravam davam, ora bem dois mais dois, davam, davam, para ele, uma multidão. A segurança caíra, desaparecera por entre risinhos e outros sons que se haviam sentado na mesa em frente

Por momentos imaginou que cada uma daquelas mesas eram ilhas e sentiu-se violado no seu direito a viver naufrágios. Se alguém partilhasse daquela mesa para além de si, talvez toma-se consciência que o próprio Robinson Crusoe só estivera isolado até ao dia que depois se constatou, fora uma sexta-feira. Olhou para si e achou-se vazio. Como se para ele aquele dia não tivesse nome, nem data e nem sequer razão e pousou a sandes na borda da mesa.

Num ímpeto, arrancada com a ligeireza que apenas pode ser notada nos brutos ou nos puros de coração, levantou as mãos do porto de abrigo que, se tornara aquela mesa, e os pés cansados daquele bater monocórdico e nervoso, arrastaram o naufrago de si até ao balcão. O homem do café parou de limpara louça e fez um leve sinal com a cabeça, como quem pergunta uma daquelas coisas que se dizem só de circunstância, o naufrago tenta encontrar as palavras que quer deixar ali, como pegadas na areia e confunde-se.

As outras mesas levantam-se e o balcão perde o pouco de paz que oferecera dos segundos antes. As pernas tremem, as palmas das mãos parecem querer imitar as janelas onde desenhara cachopices nos invernos de menino e, na garganta, um aperto que só lembra aquele dia e aquele par de sapatos que comprou, num dia ousado, ousado o suficiente para antes não os ter calçado. Fecha os olhos e recupera um segundo de fôlego, paga a conta e sai sem reparar nos passos que são os seus, no bailado ridículo do momento agora.

A salvo. Encolhe os ombros ligeiramente e ergue a cabeça quase com decisão de quem sabe muito bem aquilo que está prestes a fazer. Fora do café, uma leve brisa e vai o dia já adiantado, conta o mundo, mas tal como lá dentro, ninguém vai reparar nos seus tiques e receiozinhos. São quase horas de qualquer coisa, para ele são quase sempre um quarto para as cinco. Para os outros são as horas certas e não uma teima que um dia foi um sonho e depois se vive uma e outra vez, sem juízo nem idade. Os outros, no fundo são todos como ele e o engraçado reside do facto de isso não interessa quase nada. Somos nós que levamos os nossos medos. Ninguém quer saber.

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