UM DIA O CATA-VENTO


Ignorar a corrente era, assim de repente, uma insanidade mais ou menos validada pelo facto de que, claro está, é muito mais fácil ser a favor, do que contrariar uma corrente, seja ela caracterizada pela inércia ou, antes pelo contrário, pelo excesso de movimento. Explicando o facto de uma forma simples de entender, tão teimoso é o sujeito que tenta forçar as correntes que o mantêm na quietude de uma ideia imposta de fora para dentro, como teimoso se torna aquele que ao aquilatar da direcção que toma um determinada caminho de água, se lembra de tentar exactamente o sentido oposto. Ora, não é suposto as correntes, por diferentes que sejam, agirem como facilitadoras de vontades alheias àquelas que efectivamente as aceitam como são, correntes.

Chamavam-lhe o “Cata-vento”, talvez pela sua graciosidade naquilo que vulgarmente se designa por “Mary go with the others”, que é uma versão muito pobre do que efectivamente se podia ter dito em português. O Cata-vento era um fixe, simplesmente porque se tornava naquela pessoa que estava sempre lá, pronto a finalizar as frases dos seus interlocutores, como se o vazio do seu intimo se pudesse preencher com a vastidão que era para si a figura do outro.

O Cata-vento na sua forma muito própria de ser, a ausência do seu eu, tornara-se um paradigma do social na terceira pessoa, elemento fundamental para nos coçar as costas, só para pior exemplo não ir rebuscar. A sua mais irritante teimosia talvez fosse mesmo não ser teimoso e teimar nessa provocação que, sejamos sinceros, também pode enervar uma pessoa. No fundo a corrente que o ligava aos outros era outra forma de corrente, díspar de características quando comparada com os exemplos já apontados. Ainda assim era uma ligação que o obrigavam, de livre vontade, a vacilar sempre na direcção do outro.
Chamavam-lhe o Cata-vento. Chamavam-lhe teimoso e chamavam-no por muitos nomes, mas nunca pelo próprio. Assustamo-nos quando nos tratam pelo nosso nome próprio, parece que entram na nossa intimidade e roubam os segredos que queremos, bem escondidos no nosso eu. Cata-vento torna-se cada um de nós, amarrados aos ditos e desditos alheios. Num instante de livre pensamento um odor desagradável invade o ar, os outros, aqueles que desconhecem a verdade acerca do Cata-vento sabem do que falamos, mas aqueles que desconhecem tudo aquilo de que falámos jamais conhecerão a triste história de Antero Vimioso, Cata-vento de coração. O desgraçado que se libertou ao sabor que pode existir naquele momento em que se conhecem aqueles que ousam enfrentar a corrente… eléctrica.

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