UM PINHEIRINHO CHAMADO CARINHO


“Como são estranhos aqueles que fazem a guerra, ou como lhes parecem estranhos aqueles que amam a paz”

Carinho era um pinheiro. Para começar nada de muito extraordinário, a não ser que o papel onde a sua história começava por ser escrita fosse mais ou menos criado a partir da sua pouca graça. Mas não, pelo menos neste caso Carinho era mais ou menos daqueles pinheiros que povoam a nossa imaginação nas noites de Natal. Verde, muito verde, pequeno, mas grande o suficiente para ser apreciado e se eu dissesse frágil estaria provavelmente a repetir uma imagem que de certo todos já construímos a esta altura. Ah e claro, para completar uma ideia um quanto ou tanto a roçar o idílico, bem-parecido, bonito, giro, engraçado…

Carinho era, deve-se frisar, sublinhar e talvez reforçar para que não haja qualquer confusão, um pinheiro que apesar de ser um pinheiro, não na perspectiva filosófica mas apenas no carácter físico da coisa, desconhecia por completo as maleitas que qualquer pinheiro que se preze, aqui ou ali, aprende a temer. Estou a referir-me sem grandes rodeios ao fogo, à serra dos seres humanos e até mesmo aos rivais eucaliptos, ao tempo, aquele em que Carinho era o tal pinheiro, a florestar por aí em ascendente sobre os velhos e cansados pinhais.

Carinho era então o tal pinheiro. Aquele de que acompanhamos a história, e para começar, vivia feliz e despreocupado. Mas porque as crianças também têm o seu direito às ânsias dos pleonasmos mascarados de depressão ou hiperactividade, se Carinho por um acaso qualquer se descobrisse a sentir invadido por uma também ela qualquer pontinha de tristeza ou solidão, sabia que lhe bastava procurar lá em cima, bem no alto e acalmar o seu desassossego. Olhava a mãe, com aqueles olhos que na nossa história os pinheiros possuem, e ela devolvia toda aquela admiração com um toque de ternura e orgulho, quando o toque é uma mera figura de estilo e não carece de qualquer explicação, porque o amar se calhar não é assim tão fácil de escrever, ou então aos pinheiros é proibido o amor.

Estes eram os dias de Carinho, uma infância no paraíso, uma infância deixada viver ao ritmo de quem é criança, e os sonhos, os seus, e uma vontade, a sua, que deixava antever tudo aquilo que Carinho sabia, haveria de ser seu.

Não muito, foi o tempo que passou, com aquela velocidade estranha que anda de braço dado à felicidade. E um dia, igual a tantos outros dias que conheceu o nosso pinheirinho, assim mais ou menos quando a luz e a ausência dela, como dois corpos em sintonia faziam o amanhecer; naquele momento em os primeiros raios de sol se descobrem a beijar a terra fria, para o despertar daquele sono que só o relento parece saber oferecer, veio dizer que existia uma verdade de que só os pinheiros anciãos se recordavam não com pouca dificuldade.

Os homens corpulentos e a barba por fazer, um já pouco leve odor a álcool que lhes nascia da boca e a mesma enfeitada entretanto, com uma ponta de cigarro de uma marca um tanto ou quanto rasca e os machados, amantes e acompanhantes, fiéis seguidores daquelas mãos marcadas e apimentadas pelas palavras adocicadas por uma  rudeza, que entretanto desfazia qualquer dúvida que pudesse ainda andar por aquele pinhal. E o velho Ranzinga, o pinheiro mestre, haveria de avisar que aqueles eram os N’hadores e os seus terríveis dentes comedores de madeira, que gerações de pinhas e pinhões haviam passado sem conhecer.

A boa madeira que procuravam estes tais lenhadores, feitos em castigadores quase que míticos, ali a encontraram entre os protegidos do velho pinheiro mestre. E Carinho assistiu a uma autêntica encenação que facilmente poderia ser confundida com uma qualquer limpeza étnica. E aquela serra que não poupou sequer a sua mãe, abatida depois de seguida, por meia dúzia de golpes de machado. Carinho, tal como os seus companheiros, sentiu uma dor terrível embora de origem diferente, por ser lá bem dentro onde a seiva corria e beijava as suas entranhas. Os outros amigos, os já adultos, esses viam a vida a fugir-lhes em pouco mais que uma manhã, entre o rangido da madeira e o odor a gasolina que alimentava aqueles dentes famintos.

O nosso pinheirinho compreendia pela primeira vez, o verdadeiro significado do ódio e da raiva, e embora não soubesse evidentemente o significado semântico de qualquer das duas palavras, quis vingar-se. Tal era, no entanto impossível. E para mais, aquele que se julgava, ainda no dia anterior, bonito, de tronco bem feito e de seiva fresca e refrescante, era poupado ao terrível abate, por ser muito novo e delgado, segundo ouvira da boca de um dos N’hadores.

Sozinho. Agora sentia-se verdadeiramente só. E nem sequer adiantava olhar para cima, pois nem o orgulho, nem a ternura que bebera de sua mãe se encontrariam à distância de um levantar de cabeça. Restavam-lhe as outras crianças, que como ele, haviam sido poupadas e abandonadas. Teria de os convencer, de os liderar numa cruzada contra aqueles que o velho pinheiro mestre chamara de N’hadores. Para ele, seriam sempre assassinos… E um dia aquela dor haveria de ser compreendida e compensada.

Os anos passaram, e o pequeno Carinho tornou-se um grande e belo pinheiro. Aliás a paisagem em volta, era dele mesmo um verdadeiro espelho. Um pinhal soberbo que não estaria por certo, não poderia estar, muito tempo incógnito; ou não fosse a beleza o mais indiscreto chamariz às coisas que a inveja trás consigo. Todos o sabiam muito bem. Estranhavam até que, ao adormecer à noite, não fossem acordar na manhã seguinte transformados em duas ou três tábuas, capazes de adornar uma porta ou uma janela de uma casa de rés-do-chão ou quem sabe fazer parte daquela mesa que se comprou para a sala de jantar.

Tinham medo. Mas não seria assim tão pouco original, o destino que lhes seria traçado. E naquela tarde em o tempo estava excelente e convidativo a longos passeios em locais frescos e arejados. Naquela tarde em que a temperatura aumentava; sim estava uma tarde bela e calma, muito calma e igualmente quente. O quente que se transformou em muito calor, e um ar que se pulverizou com um odor a chamuscado.

Colocado em alerta pelos sentidos que apurara em anos de treino e autocontrole, Carinho, o mais frio e calculista de todos, ou então simplesmente o mais atento, ficou pensativo, pasmado e finalmente decidiu-se pelo pânico. Ouvia os gritos dos companheiros e via um ser de cor alaranjada como que um feiticeiro que se desdobrava indefinidamente e com uma imensa sede de madeira. Sabia que esta cor que queimava só de olhar, os consumia na igual medida, com a mesma fúria e velocidade que os S’assinos haviam feito tantos anos antes.

Alguém disse que aquilo era o fogo e Carinho sentiu a acção daquele no seu íntimo mais profundo. O seu dentro, o que não é o metafísico mas pura e simplesmente aquele onde dói. Não gritou, mas acrescentou algo aos mais terríveis sentimentos que lhe trajavam a seiva. Com a chegada das sirenes, a água apresentou-se e completou o seu serviço de uma forma que quase cheirava a esperança. Em breve o incêndio estava extinto e o pinhal reduzido a uma recordação amarelada, ornamentada por pequenos conjuntos de cinzas, alinhadas quase que geometricamente.

De Carinho nem sinal; teria alimentado as devastadoras chamas, ou provavelmente sido comprado por uma ninharia, descansando agora numa qualquer serração? Não, naquela confusão, um meio pinheiro passara despercebido. Carinho, novamente sozinho, rei num monte de cinzas que haviam sido os seus amigos e escravo das suas próprias raízes, como quem não pode negar o seu berço. Fora belo, ou algo próximo ao seu conceito de beleza mas agora era apenas uma metade que transbordava, novamente de ódio, sem sequer saber, talvez sem saber na verdade, por quem o sentia de facto.

Sabia que queria fazer alguma coisa. Talvez impedir os sucessivos abates florestais e os incêndios criminosos, ou por descuido. Queri também gritar e chamar a atenção dos seres humanos, avisá-los de que afinal também eles estavam a ser abatidos e queimados, pois sem florestas o oxigénio seria apenas uma beata mal apagada, num pinhal que alguém se esquecera de cuidar.

Estava distraído, imerso em si, filosofando aquela filosofia que vem com a dor. Nem deu pela presença de um novo grupo de homens. Estes, depois de limparem e prepararem todo o terreno martirizado, começavam por plantar aquele lingrinhas esverdeado e convencido. Há quem lhe chame os eucaliptos. E soube de que cor era o fim. Carinho não poderia escapar e foi cortado para dar lugar a uma nova raça, como se os homens pudessem brincar à criação da própria natureza.

Durante o corte, sentiu os dentes da serra que maltratavam o seu tronco, mas inesperadamente sentiu também o ódio, transfigurado à beira do fim em esperança, sincera e libertadora. No segundo seguinte Carinho seria apenas uma saudade. E se alguém da sua espécie tivesse sobrevivido o suficiente para o sentir, seria uma inspiração para os que ficavam. Em poucos dias o antigo pinhal dava lugar a um eucaliptal e no lugar de Carinho, vivia vistoso um forte eucalipto.

Mas como Carinho e todos nós, fomos um dia aquela criança sonhadora, e como nos sonhos podemos voltar àquele momento especial até encontrar aquele segundo de felicidade; algum tempo depois, esse forte eucalipto, que começara por ser enfezado e lingrinhas, estava, coisa do destino, murcho e seco e do verde apenas um debotado a conseguir uma nova cor, quase um amarelo-torrado. E precisamente naquele segundo em que nos parece tão fácil ser feliz, antes ainda do acordar e do perceber que foi um sonho, a certeza que no seu lugar nascera uma papoila de um vermelho muito vivo, que alguém ofereceu a outro alguém, com muito carinho.

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