A NOITE PASSADA


Contei os dias
como se fosse uma história.
Sentei-me
na primeira fila
e podia sentir o cheiro do recreio.
Faltei à primeira hora,
e quando cheguei
estávamos no intervalo.

Fingi que tinha livros para ler,
porque os passos dos outros
marcam o meu pulso,
como um relógio
que se partiu
e teima
em dar a mesma hora
a todas as horas.

Inventei-me para mim
e fiquei sentado,
ainda na primeira fila,
a admirar o actor principal.
Compreender o papel
passa muito por invejá-lo,
torna-se fácil
se formos nós…

Admitir que ainda estou no recreio
é mais doloroso
quando as horas avançam no dia.
A carteira abriu-se no chão,
afinal estava vazia,
alguém me empurrou
para passar,
e não me viu.
As personagens só fazem sentido
quando emocionam alguém.

Passei tanto tempo escondido
que agora quero voltar
encontro outro
e não lhe consigo explicar
porque sou eu.

Ajuda-me, ajuda-me,
dá-me a mão
e empurra-me com força.
Quero acordar do sonho
mas tenho medo
da madrugada,
o silêncio deixa-me
a contas comigo,
e fica pouco para eu escrever.

Se eu pudesse
rasgava os papéis todos,
e escrevia de novo.
Lê as minhas palavras
e faz um risco
no que não interessa.
Falta-me descobrir
a cor
por debaixo dos meus poemas.

O meu verso mais cativante
estava aqui.
Afinal o intervalo
trouxe-me
a emoção da personagem
apenas,
quando escrevi.
Sem compreender
dei cabo dele.

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