(QUASE) CEM ANOS DE IMAGINAÇÃO


Que raio de sentir se pode encontrar na notícia de alguém que se desprende de nós sem grandes alaridos, imediatismos, ou imagens metafóricas. Ouvi o teu nome muitas vezes, dizer que foram umas cem, seria belo demais, porque foi esse, claro, o caminho que primeiro encontrei para me encontrar nesses teus caminhos e atalhos que me encontrei também, enquanto leitor, por isso desculpa chamar-lhes um pouco meus.

Descobri que cem anos de solidão pode ser demasiado tempo, não evidentemente tanto tempo quanto aquele que esperei para enfrentar essa aventura de conhecer Aureliano Buendia. Não sei se é exatamente o romance que eu esperava. Li. Esperei. Fiquei sem saber se gostava. Amei e viciei-me em cada pincelada que ficou no quadro que desenhei com as tuas palavras no palácio da minha mente, sabes, é lá que guardo os meus, poucos tesouros, mas são estes que eu penso que também poderiam durar cerca de cem anos.

Quando encontrava na contracapa esse sorriso feito de experiência e marotice de vida, um quase idoso/criança, que poucos temos o poder de preservar, sabia que de alguma forma, teria de ver a capa, e porque esse teu mundo era tão feito de realismo, daria comigo não sei onde lendo cada palavra, feito de uma magia que jamais poderei compreender sem ser através dos teus dedos.

Podia dizer-te que não tinhas o direito de partir assim, provavelmente milhões de pessoas já o disseram, mas nem eu tenho esse direito, nem tu simplesmente te foste embora daqui, como quem se farta do chão que é seu e pisa todos os dias. Gosto de pensar que te libertaste de ponteiros e latitudes e que agora, me basta pensar um pouco para voltar a sentir esse sorriso matreiro.

Como eu gostava de te ter conhecido pessoalmente! Sabes, uma vez, não há muito tempo, conheci uma senhora que te conheceu em Cuba, falámos de Fidel Castro claro, mas falámos principalmente de ti. Soube nesse momento que de certa forma seria o tempo em que estaria mais perto de ti, neste mundo tão real e segundo tu tão mágico, Foi o meu momento de magia. Obrigado.

Também eu gosto de escrever, mas as minhas palavras parecem apagar-se das folhas onde eu teimo contar delas, onde tento há quase cem anos fazer memórias das minhas putas tristes, como se as meretrizes de cada conjunção pudessem ser princesas e rainhas da literatura. Escrevias para tipos como eu, que nem sequer rei de mim sou mas que de facto me sentia feliz nas tuas palavras.

Por tua causa, por causa de tantas crónicas e cólera em tempos vastos, uma dia haverá, muitos anos depois, em que alguém se lembre daquele dia, não daquele em que simplesmente te foste embora, mas daquele dia e que te começou a conhecer. Ninguém escreve ao Coronel, mas agora não digas que ninguém te escreve a ti, porque é para ti, este simples, sentido, modesto mas muito meu… Obrigado.

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2 thoughts on “(QUASE) CEM ANOS DE IMAGINAÇÃO

  1. Foram as palavras mais bonitas que li sobre a partida “DESSE” que havemos de eternizar, não foram frases feitas, foram palavras sinceras que dizem tudo o que alguns como eu sentem mas não conseguem transmitir. Também tu tens o dom de conseguir expressar em palavras emoções!

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