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Escritor das pequenas coisas

A QUE SABE ESTE CAFÉ

Se eu não tivesse vindo agora aqui,
não se passaria nada…
Tenho um grande dom, para fazer nadas,
pequenos nadas que parecem
caber em si de mundos e são isso mesmo,
nada.

Não é que falar seja algo de especial!
É de certeza, mas só quando se tem algo para dizer.
Jamais deveria ter começado a escrever,
a primeira palavra só serve para segurar as outras…
Depois torna-se difícil ignorar que somos isso mesmo
Nada.

Estou cansado de apagar dias,
perdi o carvão com que escrevi a primeira carta,
só queria dizer que sei muitas coisas,
mas as mentiras pesam mais
quando as carregamos ao colo.
Por isso mesmo,
se não tivesse vindo agora aqui,
não se passaria nada,
Folhas em branco, um grande bloco
de folhas por enganar
são a mentira perfeita.
Ninguém sabe quantas lágrimas
se perderam, se não conhecer
o sabor dos números, a equação perfeita
resulta em nada.

EQUAÇÃO QUASE PERFEITA

Faz de conta que era noite,
e da noite se fez a métrica
da equação quase perfeita.
Um nada imenso de si,
só a noite, pintada no horizonte
e uma mão cheia de palavras!
Um sentido renovado
que sempre foi nosso para abraçar.
Crescer é como perder
o fio da meada e os outros sonhos.
Algo que se conta em tom lendário,
por ser demasiado belo
para acreditar!

NOVA IDADE

Um olhar deitado à terra,

fez da noite uma impossibilidade,

repetida num tempo que não este!

Quanta da ilusão é na verdade realidade?

E se fosse possível clonar momentos,

quantas vezes teríamos lido

uma mesma página de um livro diferente?

Lua Nova talvez seja exatamente o que necessitamos,

no nosso tempo a novidade faz falta,

cansámos os nossos sentidos de repetições inócuas

e agora fazemos apenas o que nos dizem.

Desobedecer talvez seja o caminho,

ontem a Lua parece ter dado o sinal de partida,

a palidez não estava lá.

Há quem veja no vermelho um mero sinal de stop,

há quem queira que o continuemos a ver, indefinidamente!

Continuaremos de cabeça no ar?

Com a a cabeça no ar?

Se aceitarmos que as cores são apenas manifestação de beleza,

saberemos contemplar o momento,

no momento e depois avançar. Até ao próximo momento…

EXÍLIO

Durante o inverno habitei a cidade mais alta,
joguei às mentiras com estranhos olhares cativantes.
Agora regressei à terra, dos donos da lei
e de todos os outros, aqueles que a negavam também!
Companheiros, tatuámos a dor como um troféu,
somos os caçadores da velha angústia.
Quem entre nós sabe o caminho não quer nunca mais voltar,
baixámos os braços cedo demais!
As palavras bonitas existem nos livros, no sonho via-as a todas,
hoje entrei pela porta e ninguém me saudou…
Os meus olhos viram a beleza, num delírio que nunca existiu.

VISLUMBRE

Na tarde, o resto de tudo
e os olhos abraçados.
Um derradeiro odor vertiginoso
completa um pensamento de ontem.
Preenchida foi a devassidão e o tédio
ficou nas mãos, a contemplar
tudo o que de humano
podia ser desmentido.
No final um caminho perfeito,
a floresta virgem
condensou toda a extensão
do eu, num breve existir!
Vislumbra o nada
e sente o que sou!

INTENSA IDADE

As idades são como espinhos
pequenos ciclos que nos mostram
diferentes visões de um mesmo caminho!
Como se apenas mudassem as janelas
por onde espreitamos,
mas fossem os mesmos momentos
os visitados, bem como os olhares
a visitá-los.
Quando as mãos se reencontraram
o tempo, ficara gravado
por entre os dedos,
sonhos que se não fizeram,
sequer se ponderaram
a pulsar de intensidade,
como se chorar, assim, sem vergonhas
oferecesse amanhã
um outra vez para fazer tudo bem,
ou talvez aprender mais um pouco.

MELANCOLIAS

A melancolia é uma falácia do tempo,
um entendimento de mim para com os outros
uma quase porção de nada que nos subtrai ao presente
e nos atira, vertiginosamente, em direção ao ego.

A melancolia, assim, entende-se como um quase de mim,
um descobrir que há algo, um desvendar
que julgo, jamais conseguiremos compreender,
talvez porque no cerne, entender seria mais um desistir.

A melancolia relembra-me de um quase espaço
que por não o poder continuar a ser
existe agora numa outra dimensão… Só minha!
Após os meus pensamentos, a misantropia do eu.

TIMIDEZ

Somos donos de um privilégio,
uma alquimia incrível
e teimamos em asfixiar o pensamento.

Agora, tenho de ir frente
e nem sei por onde vim!
Como vou saber
onde descansar?
Se conheceres outra dimensão
e se lhe dão nomes que não entendo,
como vou conseguir
juntar as minhas peças todas
e construir-me de uma só vez.

Sabes, é tao confortável
sentir-me em silencio,
atirar as minhas mãos,
e desafiar o vazio…

Por vezes, fica mais fácil,
desprendo-me do sentido
e aceito-me por um momento.
O resguardo da mente
aquece-me no inverno,
quando a timidez desvanecer
chegarei à próxima estação.

QUE É ISSO DO SONHO

As mãos libertaram-se do momento
e fizeram o passeio do tempo.
Entre o nada e o agora, poucas
coisas são tão belas como a liberdade.
Um forte abraço com sabor a tudo
percorre o sentido das letras
que se juntaram, o imediato
parece diferente, visto de perto!
Sonhámos com montanhas,
porque lá em cima tudo parece possível.
Pois quando alcançarmos a planície
seremos apenas uma memória.
As mãos baixam, o peso
dos dias, aniquila a imagem
do sonho foi tanto
e depois apenas tudo aquilo que é.