Category Archives: Crónicas

SONHEI QUE GANHÁMOS AO GANA

Não sonhei nada, só não sabia exatamente que começo escolher. Menti. Logo a seguir lesionei-me na língua, bem feito! Um destes dias, provavelmente ontem, enviaram-me uma daquelas imagens que brinca com o facto de, por um (in)feliz acaso, as lesões terem surgido, qual cogumelos, um pouco por todos os membros inferiores dos nossos rapazes lá por terras de Vera Cruz. Ora estava eu a pensar se escrevia ou não mais um pequeno texto, quando se me ocorreu a Cruz da Vera e o Pau-brasil. Tudo junto parece-me uma tareia demasiado grande para estar para aqui com grandes cuidados, inclusive com pontuações e afins. Adiante.

Enchemos o saco abundantemente com os novos donos do pedaço lusitano. Não contentes com essa atitude tão altruísta para com os rapazes do Low, entrámos a matar domingo dentro e, ainda o galo não cantara a meia-noite em terras de Viriato e já os américas estavam a ser bombardeados por Nani, Ronaldo, Meireles e companhia. Curioso. Reparei que alguns jogadores americanos fizeram sinais para o banco de suplentes a pedirem confirmação de que o Meireles não levava qualquer bomba colada ao corpo. Parece que três minutos depois Obama confirmava que eram mesmo só tatuagens. No banco português Rui Patrício sorria maliciosamente, ninguém notara a diferença, o pobre keeper do Sporting está agora algures na Rússia, enquanto Snowden passei alegremente em Campinas. Ainda não fez uma defesa… mas esse é o disfarce perfeito.

Amanhã jogamos com o Gana. Podemos ganhar 5-0? Podemos. Mas é melhor não. Bastou-me o anúncio do Good Bye Troika, que afinal era mais um até já. Não quero passar aos oitavos de final. Não quero que o sonho continue. Quero que o mundial termine depressa para saber onde andam os nossos governantes. Se Passos Coelho tiver uma tendinite ou Paulo Portas um penteado novo, quero saber, ah pois quero. E quando o PM for de férias à Manta Rota, quero ver em que canal vou ficar a saber da bagagem que ele e a sua senhora irão levar. Ah como é bom voltar a cheirar o perfume do nosso dia-a-dia.

Esta noite tive um sonho. Num universo alternativo o mundo era exatamente igual ao nosso, mas com pequenas nuances. Em dia de votação do orçamento de estado, Maria Luis Albuquerque lesiona-se no pulso logo aos cinco minutos, em pleno hemiciclo, Passos Coelho olha para a bancada em busca de soluções, não há suplentes à altura, o PM suspira em silêncio por Relvas, mas Scolari antecipara-se e Neymar tem agora um companheiro de ataque com equivalência a Ronaldo, o Fenómeno. A coligação treme, Fábio Coentrão é hipótese o país pára, Isaltino acende o charuto, com ou sem lesões continua a ser o maior. Provavelmente teremos de pagar o bilhete três ou quatro vezes, sem fatura claro, mas fica o convite, vamos vê-lo jogar? Força Portugal.

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POST ABERTO PARA CRISTIANO RONALDO

Caro Capitão,

Pensei em realizar um vídeo, para te fazer chegar esta mensagem, mas ocorreram-me quatro “senões” (que, em plena ressaca germânica, me parece ser o plural correto de senão). O problema começa logo pelo número. Quatro! Mas continuemos. Porque não fiz o vídeo? É fácil, muito fácil. Não sou fotogénico como tu és, uma; sou, de longe, menos habilidoso que Lynch, Allen ou Coppola, duas; falta-me a arte de Williams ou Zimmermann para a banda sonora, três, e quatro, simplesmente não me apeteceu.

Pois é mesmo assim e é mesmo por aqui que vou começar. Não me apeteceu realizar o vídeo, tal como, me parece, não vos apeteceu jogar à bola em Salvador com a mannschaft. Se estou certo? Bem, da minha ausência de vontade, consciente estou, da vossa, bem da vossa, estou simplesmente a deitar-me a adivinhar (tramado utilizar aqui a palavra deitar, não?).

Ainda assim, acredito. Já passou o tempo necessário para que, em mim, eu passe do oito ao oitenta. E volto a acreditar. Somos assim, mas tu sabes, tu também és latino. Foi por isso que choraste em janeiro, quando te disseram aquilo que todos nós já sabíamos, que és o melhor do mundo. E o Leo? Pois ele também é bom. Mas tu saltas mais alto, corres mais depressa e tens mais força. Ah é verdade também faturas mais e pagas os teus impostos (desculpa Messi, não resisti). Se nada melhor te ocorrer acredita que até a nossa Ministra das Finanças te vê como melhor, contribuinte, claro está.

É por isso que quero. Não, não está correto. É por isso que nós queremos que pegues no nome de Portugal, e o eleves lá ao alto, desde o segundo que, em Manaus, entoar a Portuguesa. Lidera a equipa rumo ao sonho que os alemães teimam em nos roubar. Não queremos que sejas Átila, César ou Napoleão, queremos apenas que sejas nosso Capitão, Cristiano Ronaldo. Força Portugal, os Heróis do Mar vão estar hoje todos unidos, em pensamento, o encontro está marcado. Até logo. Às 23 começamos a reescrever a nossa história.

É SÓ FUTEBOL

Paulo Bento demonstrou uma proposição que, infelizmente, se vai enraizando e tornando cada vez mais uma tradição: não nos safamos com os alemães. Relembro as tentativas do Eng. Sócrates em negociar com a Sra Merkle (uma coisa que me apoquenta é não saber se a Ângela é Drª ou Engª) e que geralmente corriam bem, nas palavras do antigo PM e que depois, acabavam, como infelizmente todos sabemos, com uma goleada do ministro das finanças Alemão ao nosso orçamento (familiar, não o de Estado).

Nos primeiros minutos de jogo, Cristiano Ronaldo, de braçadeira no braço, mostrou aos alemães o que a padeira de Aljubarrota mostrara, séculos antes, aos espanhóis… Por esta altura algumas imagens estranhas terão passado pela mente do leitor, mas referíamo-nos à pá, não a uma objeto real, mas neste caso a uma figura de estilo denominada metáfora. Sim, nós portugueses podemos não ser grandes, mas de figuras de estilo está o nosso passado recente bem apetrechado.

“O vento soprou e ela não voltou”, mas um fulano qualquer vestido de branco senta-se na área, ao colo de João Pereira e o senhor “qualquer coisic” aponta a marca de penalty e, num segundo, o rating da nossa seleção desce para ddd. Em Portugal o nosso PM sustém a respiração, no Brasil Paulo Bento levanta os olhos ao céu, e aproveita para beber um pouco de água e afogar a mágoa, antes que a mágoa o afogue a ele. Muller chuva (chuta), não sabemos mas é o principio do vendaval. Também não o sabíamos aquando da chegada da troika.

O jogo contina, por cá continua há já tempo demais. Por lá CR7 e sus muchachos dão conta do cansaço de 60 jogos numa época desgastante, por cá a maior parte de nós teria um ZERO á frente das iniciais se isso fosse passível de ser considerado matéria coletável. Esteja onde estiver, Vítor “Hans” Gaspar terá já sorrido quatro vezes. Não pelos golos germânicos. Mas sim por ter entrado no governo, por de lá ter saído, qual dama ofendida, por ter entrado no FMI e por já não faltar muito para atingir a idade da reforma. Sim porque VG23%IVA (qualquer semelhança com o antigo Ministro das Finanças, não será mera coincidência) conseguiu fazer o mesmo que Ronaldo na Suécia, só que durante mais tempo, “Eu estou aqui”.

Salvador, quente e húmido, os braços de Pepe escorregam e batem na cara do alemão Muller, o menino cai, Merkle levanta-se para tirar mais uma pastilha de cevada, a seu lado Lula prevê que a Alemanha ganhe o jogo… Não. O polvo é que sabe sempre que ganha (Ignorar por favor este parágrafo, inclusivamente a troca do quem ganha pelo que ganha). Pepe lembra-se de Sónia Braga e dá o beijo da Mulher Aranha no Thomas Muller que quase volta a cair, provavelmente pelo hálito do Luso-Brasileiro. Mais um falhanço na organização, um prego faz com que o alemão salte em direção a Pepe “O Sereno”, acontece magia, o árbitovic puxa do amarelo, mas uma ilusão de ótica, devida à elevada temperatura, faz com que todos vejam um vermelho direto.

O jogo segue sem grande história, o adjunto de Paulo Bento pensa em sair da coligação, mas Miguel Relvas avisa o Preparador Físico a tempo de manter a equipa técnica coesa. Em Portugal Cavaco sente-se mal, momentos depois o comentador corrige, senta-se mal no sofá e acaba na alcatifa, onde por acaso está já deitado há quase 90 minutos Rui Patrício. O jogo acaba, Nuno Crato manda alterar os exames nacionais de matemática e inclui uma questão cujo resultado é 40. Pires de Lima faz negócio com uma velhota que faz havaianas manualmente. Merkle levanta-se e bate palmas, Passos Coelho e quase metade do hemiciclo faz o mesmo. A sra está feliz, nós estamos felizes.

E agora? Agora venham os “amaricanos”, não lhes devemos nada, julgo eu, exceto o facto do coach deles ser alemão, mas isso é apenas uma ironia do destino, ou então da Moody’s, que entretanto depois de ver uma foto de Meireles nas redes sociais, baixa o rating português para xxy (à beira de sermos considerados pornográficos). Hoje voltamos à vida real, vamos passar o dia a dizer mal dos alemães e dos árbitros, que conversa diferente temos tido nos últimos 3 anos?

 

 

 

 

RGB

A primeira vez que me lembra ser Benfica, festejei um titulo do Sporting com a minha mãe! Não sabia então, que tanto eu, leão de signo, como aqueles, leões de coração, demoraríamos quase o mesmo tempo a atingir a maioridade, piada mais ou menos batida que se atirava a alguém que dissesse, nesses anos em que algures por Coimbra se podia tomar a bica a preço de saldo, ser este o ano do Sporting. Ora, sendo assim, a primeira vez que me apercebi que gostava do Benfica, curiosamente o Benfica perdeu!!

Lembro-me de outro episódio em que “Manel” Fernandes, julgo eu, acabara de cravar a sétima garra na águia e eu, como é bela a inocência das crianças, ignorando as pedagógicas e carinhosas palavras dos meus pais, esperava que Shéu e seus pares inventassem uma fórmula que invertesse o 7-1 para 7-8. Não aconteceu mas eu continuei a ser do Benfica. Por outro ponto de vista, quanto mais o Benfica perdesse mais eu gostava de ser benfiquista. Estranho!

Diz uma lenda familiar que o meu tio, irmão do meu pai, carrega a mística que vai espalhando geração após geração e que fez de mim este benfiquista, que ainda por cima se lembrou, agora, de escrever quatro ou cinco frases, provavelmente algo lamechas, acerca destas coisas de ser Benfica.

Eu benfiquista, me confesso, aplaudi Madjer em Viena e Ivkovic perante Maradona, entristeceram-me as derrotas do Benfica tal como me alegraram as suas vitórias e claro estimo os meus amigos, que não sendo muitos, são em número suficiente para criarem um pequeno arco-íris em RGB (red, green, blue), informaticamente falando.

Em 2005 quando Luisão chegou com a cabeça onde Ricardo não foi lesto a chegar com as mãos, festejei no Semanel, salão nobre situado na Linhaceira, tal como em 2010 quando Aimar e companhia ganharam o 32º titulo, festejei numa rotunda carregada de vermelho, na cidade de Tomar.

Hoje, diz o calendário segundo o Papa Gregório, estamos no ano 2014, ainda sou Benfica, alegram-me as vitórias, entristecem-me as derrotas. Lembro-me de 2013, um segundo no Dragão e um sonho que se desmoronou. O engraçado é que o futebol continuou porque é apenas isso, futebol. Mais importante os amigos RGB continuaram porque são AMIGOS.

Assim, que me desculpem os meus amigos, mas amanhã festejo um campeonato, mas mais que isso festejo o facto de lerem os textos que vou escrevendo, sendo vocês Red, Green ou Blue… Um abraço deste benfiquista que vos saúda com respeito.

(QUASE) CEM ANOS DE IMAGINAÇÃO

Que raio de sentir se pode encontrar na notícia de alguém que se desprende de nós sem grandes alaridos, imediatismos, ou imagens metafóricas. Ouvi o teu nome muitas vezes, dizer que foram umas cem, seria belo demais, porque foi esse, claro, o caminho que primeiro encontrei para me encontrar nesses teus caminhos e atalhos que me encontrei também, enquanto leitor, por isso desculpa chamar-lhes um pouco meus.

Descobri que cem anos de solidão pode ser demasiado tempo, não evidentemente tanto tempo quanto aquele que esperei para enfrentar essa aventura de conhecer Aureliano Buendia. Não sei se é exatamente o romance que eu esperava. Li. Esperei. Fiquei sem saber se gostava. Amei e viciei-me em cada pincelada que ficou no quadro que desenhei com as tuas palavras no palácio da minha mente, sabes, é lá que guardo os meus, poucos tesouros, mas são estes que eu penso que também poderiam durar cerca de cem anos.

Quando encontrava na contracapa esse sorriso feito de experiência e marotice de vida, um quase idoso/criança, que poucos temos o poder de preservar, sabia que de alguma forma, teria de ver a capa, e porque esse teu mundo era tão feito de realismo, daria comigo não sei onde lendo cada palavra, feito de uma magia que jamais poderei compreender sem ser através dos teus dedos.

Podia dizer-te que não tinhas o direito de partir assim, provavelmente milhões de pessoas já o disseram, mas nem eu tenho esse direito, nem tu simplesmente te foste embora daqui, como quem se farta do chão que é seu e pisa todos os dias. Gosto de pensar que te libertaste de ponteiros e latitudes e que agora, me basta pensar um pouco para voltar a sentir esse sorriso matreiro.

Como eu gostava de te ter conhecido pessoalmente! Sabes, uma vez, não há muito tempo, conheci uma senhora que te conheceu em Cuba, falámos de Fidel Castro claro, mas falámos principalmente de ti. Soube nesse momento que de certa forma seria o tempo em que estaria mais perto de ti, neste mundo tão real e segundo tu tão mágico, Foi o meu momento de magia. Obrigado.

Também eu gosto de escrever, mas as minhas palavras parecem apagar-se das folhas onde eu teimo contar delas, onde tento há quase cem anos fazer memórias das minhas putas tristes, como se as meretrizes de cada conjunção pudessem ser princesas e rainhas da literatura. Escrevias para tipos como eu, que nem sequer rei de mim sou mas que de facto me sentia feliz nas tuas palavras.

Por tua causa, por causa de tantas crónicas e cólera em tempos vastos, uma dia haverá, muitos anos depois, em que alguém se lembre daquele dia, não daquele em que simplesmente te foste embora, mas daquele dia e que te começou a conhecer. Ninguém escreve ao Coronel, mas agora não digas que ninguém te escreve a ti, porque é para ti, este simples, sentido, modesto mas muito meu… Obrigado.

A MEDIDA

“O Estado vai deixar de comparticipar três vacinas e as pílulas contraceptivas visando poupar 19 milhões de euros na tentativa de reduzir o défice do sector. Movimento de Utentes dos Serviços Públicos e Associação do Planeamento Familiar já criticaram a medida apelidada de desumana. A eurodeputada socialista Edite Estrela junta-se ao coro das criticas acusando a medida de significar um “retrocesso”

in Rtp 8 de Setembro (http://www.rtp.pt/noticias/index.php?t=Vacinas-e-pilulas-contraceptivas-sem-comparticipacao.rtp&article=476960&layout=10&visual=3&tm=2)

Há coisas que me fazem confusão. Há ainda as coisas que me fazem muita confusão. E há depois aquelas que me fazem mesmo imensa confusão. Confesso que por estes dias não sei muito bem como catalogar várias das notícias que vieram a público. É a selecção e o Ricardo Carvalho, é o Benfica e o Porto, o Mourinho e o Barcelona, enfim só informação que, volto a confessar, já me custa a processar. Falemos por isso de assuntos menores. Falemos de sexo.

Por falar em confessar e por falar em sexo, estava eu a saborear uma torrada esta manhã quando me veio (que palavra mal escolhida) aos ouvidos mais uma medida contra o défice e “catrapum” querem pílulas paguem-nas. Mais nada. E fiquei a imaginar o quão polémica ou não poderia vir a ser esta medida. Primeiro ganha força a ideia da abstenção. Ora se pensarmos que nós somos um país onde a abstenção em eleições, parece o Porto no futebol, começamos logo a ver sentido por o lado. Não há pílulas para ninguém, abstenham-se, pois então meus senhores.

Mas vejamos os meandros desta política de modernismo e vanguardismo pelo lado positivo… Pois é, ainda pensei que era dos óculos escuros (estou a escrever debaixo de um solinho agradável de Verão) mas não, não consigo mesmo ver. Vejamos então por outro prisma. Planeamento familiar? O problema do país sempre foi planear, lembram-se do Comboio de alta velocidade (o tal do tê gê vê, planeou-se, planeou-se…)? E agora das duas uma ou o departamento da Interrupção voluntária da gravidez está parado e precisa de mostrar serviço ou então parece-me que se vai poupar na fonte para depois se pagar na foz.

Fui á farmácia fazer o teste. O senhor ficou a olhar para mim quando pedi uma caixa de pílulas, mas fui em frente que estas coisas comprovadas cientificamente têm logo outro valor. Afinal comparticipado custa 5, sem ser comparticipado custa 18. De facto tem mesmo outro valor e numa altura em que a Matemática anda pelas ruas da amargura, questiono-me, será que se consegue voltar a ensinar a tabuada devidamente? Eu cá não sei a resposta. Abstenho-me!

A METAMORFOSE

Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de insecto.”
A Metamorfose, Franz Kafka

Esta semana ofereceram-me um livro. Eu, que gosto bastante de ler, confesso publicamente que os livros sempre me fascinaram, principalmente quando são de cheques, dos outros e, claro está, endossados a mim. No momento em que escrevo este pequeno texto, lembro-me perfeitamente de que um dia me ofereceram um livro do Bill Gates e a minha imaginação, por segundos, fez de mim um homem rico. Afinal era mesmo um livro do Bill Gates e não qualquer garantia bancária para fazer de mim um português de um género cada vez mais raro… com dinheiro, entenda-se.

Neste ponto, julgo que estaremos de acordo, senão acerca dos livros, pelo menos com relação à desilusão que pode advir de uma alteração de contexto ou, de um ruído, que nos atire dos braços da fortuna, para a dura realidade de, para além de não ter as mãos cheias de dinheiro, ter em alternativa as mãos cheias de um papel, que quando muito, apenas nos vai deixar mais informados, atentos e preparados, enfim mais vulneráveis à real compreensão do mundo que nos rodeia. Ai que saudades das fogueiras onde se queimavam esses marotos todos… Alguém ouviu alguma vez falar em depressões na Idade das Trevas?

Por falar em depressão, ando há um bom par de dias, ou semanas (já não me recordo bem), para abordar uma temática que me deixou deprimido e, possivelmente, a ver vamos, mais pobre de espírito. Então não querem lá ver que o Fernando Nobre despertou, certa manhã, de um sonho agitado e viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de insecto? Agora confesso que me entusiasmei, não queria chamar insecto ao senhor, muito menos utilizar um adjectivo tão forte mas, quando se lê Kafka corre-se o risco de ficar assim, já quando se lê o Tio Patinhas, ao que parece, deixa-se imediatamente de ser independente e vai-se a correr escolher um partido de acordo com a nossa ideologia ou em alternativa, liderado por um homem por quem sintamos afinidade.

Nesta altura, estando já o leitor deprimido, por solidariedade ou apenas por ser leitor destas palavras, cabe-me relembrar a candidatura da cidadania à Presidência da República. E porquê? Porque a mim não me enganou o Fernando Nobre, com aquele tom de voz, meigo, a fazer lembrar o Avô Cantigas, a mim não que não votei nele, estando por isso neste momento a rir-me dos não sei quantos por cento que tiveram a triste ideia de fazer a cruzinha à frente do nome da pessoa que se prepara neste momento, para no próximo dia 5 de Junho colocar uma cruz em cima de todos os seus (ex) apoiantes (Ah pois. Porquê? Pensaram que eram donos do destino do homem?).

E como já é tarde (entenda-se quase uma da manhã e não tarde demais para recuperar do nobre choque a que fomos sujeitos), é nestas alturas que dou graças por me ter lembrado de ir fazer o cartão de cidadão. E deixo aqui um pequeno segredo, quando tentei votar no Fernando Nobre, não consegui porque o tal cartão não me deixou. Eu explico. O cartão teimou em dizer que eu tinha de ir votar numa freguesia onde nunca residi e eu assim também para o teimoso,não fui. Mas não faz mal, porque agora meus amigos, não tenho de andar para aí a engolir em seco, sendo que posso sempre optar por um tom de sabedoria e afirmar “eu bem dizia”. Ai grande inovação tecnológica este cartão… e por falar em metamorfoses, a mim transformou-me num gajo que nunca votou Fernando Nobre… e depois ainda dizem mal do Sócrates.

 

SEXO, MENTIRAS E FMI

Não vou por aí, nem sexo, nem mentiras. Quando muito FMI, pode ser? Curioso como uma atitude menos conseguida num jogo de futebol pode influenciar o dia-a-dia de uma nação inteira. Ai que saudades do Quim… Não fosse o Roberto ter cortado aquele cruzamento do Guarin, com o pormenor de ter desviado a bola para a sua própria baliza e ainda teriamos uma réstia de esperança em todos os benfiquistas. Aliás não fossem as mãos do Roberto e muito provavelmente o Benfica estava em primeiro lugar no campeonato e o nosso Primeiro-Ministro não teria sido obrigado a clamar pela ajuda do FMI. Pelo menos não agora que andam por aí as eleições e não ajuda em nada ter atitudes que não rendem votos.

 Curioso como os tempos mudam, mas não os ventos de Espanha. Curioso que quando era criança lembro-me de na hora de escolher quem ia para a baliza no recreio da escola, nos virem à cabeça grandes nomes dos postes como Preud’Home ou Schmmeichel, nunca o nome de alguém que poderia ser cantor de musica ligeira, e que nos desse vontade de mandar meter a viola no saco. Mas os tempos de facto mudam e agora, ao que parece, os governantes preferem imitar o Roberto. Pronto estão no seu direito, por isso é que governam.

Há dia estava a tomar um café e veio-me ao pensamento o Ministro das Finanças, estranho não é? Mas foi mesmo assim. E, num instante não pude deixar de sentir alguma ternura pelo senhor, pelo menos na parte inicial do meu pensamento. Lembro-me que senti a mesma ternura com o Roberto, pelo menos antes de o ver jogar. Mas voltemos ao senhor das finanças, engraçado como o consigo imaginar vestido de Floribela, com a mesma graça da Floribela, com o mesmo número de episódios da Floribela e com mais coisas da Floribela que agora não vêm ao caso. E o que é que o Roberto, a Floribela e o Teixeira dos Santos têm em comum? Lembram-se da musica “Não tenho nada…” pois é mesmo isso, para mal dos benfiquistas, do Djaló e dos portugueses em geral.

Ao que me disse um amigo, esta história do FMI pode até nem ser assim tão má como nós, pessimistas, estamos a querer pintar. Afinal o pior que pode acontecer é subirem os impostos, cortarem mais alguns dos nossos (poucos) benifícios, fatiarem salários e pensões e aqui e ali uns despedimentos para apimentar o petisco. Ah claro, mais os famosos cortes na despesa pública que passam sempre por fazer aquilo que já enumerei atrás. Ao que parece os culpados da situaçao do país são mesmo os portugueses que pagam impostos, mas deviam pagar mais, que ganham pouco mas que deviam ganhar menos. Dizia o meu amigo “Somos todos culpados, os nossos governantes não têm a culpa, coitados, fazem o melhor…” e eu fiquei a pensar, pois… se calhar era a mesma coisa que dizer que o culpado do Benfica não ser campeão era do Jorge Jesus, que teimou em meter o Roberto na baliza… Mas não, a culpa foi mesmo do Roberto, ele é que as deixou entrar, o JJ coitado, fez o melhor que sabia. Aliás a culpa do FMI estar aí a bater à porta também deve ser dele, o sacana do espanhol.

A CONTA DA LUZ

Vem ao caso hoje, não sei bem porquê, ou não quero saber, falar de desportivismo. Façamos um ponto prévio que tanta credibilidade costuma arrancar, sempre que assisto a debates em que o dito, neste caso o prévio, é apresentado com pompa e circunstância, como se fosse, só por ele o ponto de engrenagem de toda a discussão apresentada de seguida. Neste ponto, peço desculpa pela repetição da palavra mas não me apeteceu pensar noutra, façamos então o nosso próprio ponto, o prévio que consiste na afirmação orgulhosa “eu sou desportivista”. Bem, para ser sincero não é tanto assim. Gosto muito de futebol mas confesso que gosto muito mais quando o Benfica ganha. Corrijo, só gosto quando o Benfica ganha. Neste sentido tenho desportivismo, bastante até, principalmente quando o Benfica ganha, até porque quando não, para além de não achar piada nenhuma a um jogo em que se teima em maltratar uma bola que nada tem a ver com o assunto, ainda se pede ao derrotado que tenha desportivismo. Assim de repente era quase a mesma coisa que pedir ao primeiro-ministro que se demitisse quando perdesse a batalha pelo Pec.

Dirão também as vozes, para mim, ásperas e demasiado criticas, ou simplesmente demasiado não benfiquistas, que não se fazia aquela história de apagar a luz e ligar o sistema de rega no final do jogo. Pois bem quero relembrar apenas que já passava mais do que a hora do João Moutinho fazer “xixi e cama”… Venham lá dizer que o Benfica não sabe receber. Mais. Quando os jogos se disputam no Porto a claque dos Super Dragões costuma presentear os jogadores benfiquistas com bolas de golf, ora que se saiba a classe mais elitista de Lisboa é do Sporting logo, acredito que muitos dos adeptos do Glorioso nunca tenham sequer tocado numa bola de golf. Ah e não me venham fazer a piada da cor do Tiger Woods. Mas avancemos, porque não falar da alegria do João Moutinho a arrecadar os “papa-mundos” e os “abafadores” que juntamente com outros berlindes foram oferecidos à comitiva portista.

Entristece-me que, depois do jogo, ainda haja pessoas capazes de criticar o Benfica, isto depois do Roberto, já a contar com a hora do duche no final do jogo ter oferecido um frango bem a tempo do Moutinho “papar” e fazer bem a digestão. É por estas e por outras que “Fair-Play” que, traduzido para português tem um cheirinho a tira-nódoas, seja tão perigoso em Portugal como os juros da dívida soberana. Não sei se prefiro o Villas-Boas ou o FMI, sinceramente, tal como o sal, eu gostava mesmo era de evitar os dois, até porque ouvi há minutos na rádio, os juros a cinco anos são quase o tantos como o número de pontos que o Porto tem agora de avanço.

UM AVIÃOZINHO MILITAR

“…atirou uma bomba ao ar em que terra foi parar?” E lá se passava mais uma tarde, daquelas em o tempo parecia não ter asas, como possui agora, e em que as tardes pareciam ser do tamanho do Autocarro do Sport Lisboa e Benfica, grande o suficiente para não evitar bater, teimosamente, em pedras e calhaus, com especial incidência para estes últimos, a cada nova viagem ao norte do país. E assim num instante, estava eu a pensar em falar da Líbia e do bom que é existirem americanos no mundo para resolverem todos os nossos problemas, e dou por mim a dissertar acerca das violências inerentes ao facto de se colocarem vinte e dois marmanjos a correr atrás de um esférico, num espaço mais ou menos similar àquele que os romanos em tempos idos utilizavam com um fim quase ele, também similar, entretenimento.

Confusão total. Guerra, Líbia, Benfica e Romanos… Pontos de contacto? Bem vamos por partes. Primeiro, não havia guerra na Líbia, mas já lá morava um senhor chamado Kadafi e ao que parece, ninguém se importava muito com isso. Aliás devo dizer que faz parte do imaginário da minha infância o D’Artacão e os 3 Moscãoteiros, bem como os americanos a rebentarem coisas na Líbia por causa, lá está, do Kadafi. Conclusão os anos passaram e das duas uma ou o homem foi de férias e só agora voltou ou então os americanos tiveram muito para fazer e só agora arranjaram um tempinho para voltar a “arrebentar coisas” por aquelas paragens. Segundo ponto, a guerra na Líbia é tramada mas, ser escravo na Roma Antiga era, ainda assim, algo que, acredito, nenhum Líbio deseje a um americano e vice-versa (ou talvez não). E porquê, bem sem pensar muito, eram aqueles tempos em que os leões andavam por ai a comer pessoas a torto e a direito e as outras pessoas, neste caso as que não eram comidas, se limitavam a bater palmas e empanturrar-se de entretenimento.

Confesso que, no parágrafo anterior, me tinha ocorrido falar de um terceiro ponto mas padeço da mesma memória dos americanos, ou então talvez me tenha apenas apetecido saltar para a conclusão que anda aqui sem saber, tal como o avião, a que terra ir parar. Mas sigamos o nosso pequeno “lamiré” ao quotidiano e guerra aqui e guerra ali, comentadores e coisas que tal e num ápice tudo eclipsado, apenas porque alguns “calhaus” se lembraram de ir praticar aquela musiquinha do aviãozinho militar para um qualquer viaduto, sabendo neste caso em particular, onde vai a pedrinha parar.

Pois é, estranhos são estes tempos em que os leões já não comem ninguém, em que a águia americana anda pelas Líbias e arredores a repor a ordem (pelo menos a deles) e em que ficamos a saber que a águia do Benfica, neste caso o autocarro anda pelo norte a fazer colecção de pedras e de calhaus. Ao que parece a guerra segue daqui a duas semanas, eu sinceramente espero que não, porque não pago meu bilhete para ver mais do que uns pontapés na bola… Mas agora de repente, lembrei-me, neste tempo de crise, com ou sem parvoíces pelo meio, eu não pago o bilhete, ponto final. Agora os americanos que me venham cá convencer do contrário.