QUE É ISSO DO SONHO

As mãos libertaram-se do momento
e fizeram o passeio do tempo.
Entre o nada e o agora, poucas
coisas são tão belas como a liberdade.
Um forte abraço com sabor a tudo
percorre o sentido das letras
que se juntaram, o imediato
parece diferente, visto de perto!
Sonhámos com montanhas,
porque lá em cima tudo parece possível.
Pois quando alcançarmos a planície
seremos apenas uma memória.
As mãos baixam, o peso
dos dias, aniquila a imagem
do sonho foi tanto
e depois apenas tudo aquilo que é.

Anúncios

OUTONO É HOJE

Hoje é Outono! Quer dizer,
já era Outono há algum tempo,
mas hoje cheira mesmo a Outono.
Hoje vi as folhas.
As mesmas que vi verdes,
amareleceram, fraquejaram e caíram.
Quando dei por mim
chovia a chuva miúda e
ninguém viu que eu chorava
O mundo fez-se novidade,
não se olha para trás
quando pisamos meras folhas
sem importância.
Os pés das pessoas serpenteiam
passeios e caminhos
e o mundo continua a falar
em bicos de pés!

SABOR DA AUSÊNCIA

Notei na mesma ilusão, a impaciência
de transformar o quase nada
em algo um pouco diferente!
Um plano inferior,
para juntar os pontos
e abraçar horizontes.

Olhei, depois, com atenção
eram os cães, eu vi-os partirem.
Como que encantados
esquecendo os pontos cardeais
e o sustento da vontade.
Os sons da ironia, ladrados,
uma matilha de incoerências.

Dissipa-se o palavra mal desenhada,
o nevoeiro das ideias
eram apenas ramos modestos.
Uma laranjeira sem flor
ocultou a verdade,
dois segundos depois,
um ardor invulgar
com sabor a ausência.
Antes a companhia
era apenas a fingir.

IDADES DO IMPROVÁVEL

Recordar um sonho, liberta o peso
que teimamos em carregar,
fingindo que a vida faz sentido
sem que nos libertemos
das amarras dos impossíveis.
Só assim podemos aspirar ao sonho
enquanto possibilidade.
Só assim faz sentido sonhar.
Porque o sonho
faz de nós corredores do improvável,
descobridores das palavras esquecidas.
Sonhar faz com que a infância
fique tão perto da velhice,
que jamais envelheceremos
ao ponto de esquecer
a criança que somos!

AS MINHAS PALAVRAS

Entre o lado negro e a luz. Viaja todo o meu ser, um algo que se quer muito. Um quase nada que empurra o peito de encontro a mim e nada me diz. Um todo inexplicável, uma zona de conforto para auto comiseração. Eu aqui, só, a fingir letras em sequências impossíveis da escuridão palavras que quiseram acender futuros são apenas o que são. As minhas palavras! DSC_0022

UM SORRISO DIFERENTE

Solta um beijo quando partires
e faz de conta que te despedes.
Podias fazer um sorriso
como quem inventa equações,
relatividades feitas teorias
e um verão que não o chegou a ser!
Uma brisa da cor dos teus olhos,
e eles fecharam-se para sonhar.
Quando acordares avisa toda a gente
e os sorrisos voltarão a espalhar-se…

A IGNORÂNCIA QUE SOBROU DO QUE FOMOS

Nuvens pintadas de amarelo
recortam uma figura triste.
Uma queda torna-se proximidade,
como um sonho, sem chão
nem hora para acordar.

O vício da liberdade
abraça o agora, nunca o depois
teve tão pouco interesse…
O passado pesa tanto
como todos os erros cometidos.

Uma pequena melodia que se liberta
dos lábios que a criaram. Um hiato
de existência, mal compreendida.
Quando o Verão chegar, só a ignorância
sobrou de tudo o que fomos.

A BANDA SONORA

Beijem todos
antes que parta
o tempo. Eu sei
foi só uma passagem,
tenho a mão com os dedos
desenhados como uma arma.

Não sei como contar
o tempo,
sem que me beijem
os segundos que passei
a tentar reinventar-me!

Só queria saber
porque não sei nada do que digo,
talvez não tenha a culpa
de ver as cores todas,
menos o preto e o branco.

Se o mundo tivesse banda sonora
seria muito diferente,
assim não sei como explicar…
Somos apenas episódios em avulso.

Os lobos avançaram,
lavaram todas as esperanças
com a cor
que os vampiros escrevem boa noite.

Fomos demasiado longe
para poder acreditar
na árvore e nos seus frutos.
Só um olhar,
as mãos vazias deixaram
partir o vaso
e as flores,
tudo não passou de um sonho.

TÃO LONGE

Em volta da praça
os pombos em fundo
cobrem os sonhos dos pedintes.
Ao centro uma garrafa vazia,
mais á frente, dois conhecidos
trocam cumprimentos,
duas ou três palavras
uma promessa de tarde.

Parecem-me bem, os passos das crianças
tocam a melodia.
Como se nunca me tivesse esquecido
de como era.
Levo nos meus braços
o vazio de um abraço,
que os olhos só veem
com a voz de uma memória.

Sei que esta é a minha cidade,
mas por anos que passei,
escondi muito mais que um tesouro.
No seu ventre ficaram cantigas
de uma geração.
As palavras juntas em busca de um sentido,
uma forma de entender o tempo
como um olá, tão longe.

VERÃO

Gargalhadas no jardim
E mãos confundem a paisagem
inventam histórias inócuas
para que a tarde viva até ser dia.

Cantam as mesmas vozes
mas os corpos são apenas reflexos.
As imagens contam segredos,
jogam com o nosso sorriso
como se o céu fosse de todas as cores
que um de nós pudesse desejar.

Incrivelmente simples
aceitar que já somos apenas um.
Isso marca o tempo na face
das crianças e as lágrimas
marcam a idade como a areia do deserto.

Um dia, o imenso azul
será um chegar a casa,
sentir o vento ou o sal,
ver tudo do lado de fora…
Como uma longínqua sessão da tarde
e ainda assim sentir um beijo inesquecível.